Livro velho: cofre de flor seca e recordações...
Quem teria ali guardado aquele amor-perfeito entre letras geradoras de poesia? Teria sido a oferenda singela de um bem-amado, ou a satisfação de uma criança colecionadora de belezas?
Divago e flutuo no calmo e profundo mistério da imaginação sem fim. Crio personagens e romances...
Amores-perfeitos!
Amores-perfeitos da casa dos Dini!
O jardineiro tinha olhos de lince. Mesmo assim, burlava-se a intensa guarda.
Sobrado grande de esquina, protegido por grades de madeira. Palácio impenetrável da infância, com jardineiro guardião, caprichoso, bravo e egoísta.
Tapetes de amores-perfeitos aveludados, multicores, lembrando os de contos de fadas: leves, soltos, esvoaçantes... Tapetes macios de passar a mão e sentir a carícia indizível da natureza e da primavera... As lições e as páginas dos livros das meninas eram marcadas com aquelas flores...
--- Larga! Me solta! Mãe!... Eu juro, eu não tirei nenhuma flor!... Larga! gritava a pálida desfigurada menina, com o braço preso no espaço proibido, além das grades, pelas mãos garras e ásperas do jardineiro, que se escondera naquele anoitecer, atrás da mureta do jardim...
O incidente trouxe cautela. Olhava-se muito para conseguir uma flor...
Casa bonita, um palácio, ocupando meio quarteirão, com verdes e flores se espichando e subindo pelos terraços e pérgulas.
Eu tinha vontade de ver uma casa assim...
Menino, caixeiro da Livraria Ideal, eu ia sempre lá, sem nunca passar do portão da entrada, ou da porta da casa. Enquanto Dona Mulata escolhia uma das muitas caixas de papéis de carta, eu aguardava, observando os cristais coloridos das portas e janelas. Esticava a vista para além da entrada, tentando ver, sem sucesso, o que contavam daquele maravilhoso mundo europeizado: gobelinos legítimos, tapetes persas, cristais tchecos, porcelanas inglesas e chinesas, rendas belgas e suíças...
Casa bonita do ex-colono imigrante italiano, transformado em próspero fazendeiro de café e comerciante, feita com arte e pujança.
Semana Santa. Uma das capelinhas dos Passos ali era montada, na esquina, insinuando a prosperidade, através das rendas estrangeiras, dos vasos e cachepô de cristal e prata e guirlandas de raras flores...
--- Chegou um pavão na casa do Guilherme Dini!... Juro!... É um passarinho grandão como um peru, com pena pintada e um rabo de meia-lua!
--- Arranca a pena dele, vai!... Arranca!
--- Psiu!... O jardineiro!
Pavão de mil cores, com crista de rei e cauda de arco-íris... Pavão altivo, empoado, coroado, enfeitando a casa, desfilando imponente diante das crianças boquiabertas, debruçadas na mureta do jardim.
--- Aí, burro, puxa a pena dele... Ele está pertinho!
Diante da casa dos Dini, uma parada era quase obrigatória, homenageando belezas que a vista alcançava: verdes e flores, tapetes de amores-perfeitos, pavão, lustres, quadros, gobelinos nas paredes...
Casa-palácio, casa de anfitriões perfeitos, casa hospedaria de personalidades ilustres do mundo artístico e cultural do Brasil e do mundo... Casa que acarinhou romancistas, poetas, tradutores, concertistas, cantores, pintores...
O tempo passou.
A casa grande dividiu-se em duas. As pérgulas transformaram-se em garagens.
A então única garagem, sob um sobradinho onde residia o jardineiro, deu lugar a outra casa...
Um amor-perfeito: tantas recordações!
Recordação prazerosa, indelével do sobrado palácio jardim... Recordação da família hospedeira de celebridades, que muito fez pela cultura e pela arte de minha terra...
Dentro do turbilhão de infantis e adolescentes lembranças, sinto a necessidade presente de homenagear os Dini.
Um livro, um amor-perfeito achatado entre folhas, fontes de doces recordações.
( Rodolpho Del Guerra)
Rodolpho é meu conterrâneo e escreve crônicas na Gazeta do Rio Pardo.Fez essa homenagem aos meus avós.

A Casa dos Amores Perfeitos ainda existe mas não mais pertence à família.
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