Altiva e couraçada de desdém
Vivo sozinha em meu castelo, a Dor...
Debruço-me às ameias ao sol-pôr
E ponho-me a cismar não sei em quem!
Castelã da Tristeza vês alguém?!...
- E o meu olhar é interrogador...
E rio e choro! É sempre o mesmo horror
E nunca, nunca vi passar ninguém!
- Castelã da Tristeza porque choras,
Lendo toda de branco um livro d'horas
À sombra rendilhada dos vitrais?...
Castelã da Tristeza, é bem verdade,
Que a tragédia infinita é a Saudade!
Que a tragédia infinita éNunca mais!!!
A minha prisão vai além de uma simples masmorra, uma vez que lá é o lugar exato onde fadas zangadas permanecem. Enclausuradas, amordaçadas, descriminadas, a espera da morte . A ordem chega e a fogueira também. Queimadas em praças públicas. Meu destino?Talvez - Aceito e não fujo dele.
A morte não é a pior clausura que tenho conhecimento e dela não tenho medo. Estar à mercê de mim mesma, envolta em uma grande neblina que me impede de viver e de que pessoas se aproximem é muito pior. É estar só, completamente amortecida para a vida.
Em momentos assim, a tristeza toma conta de mim , mas a minha imaginação aflora em meu corpo e me faz sonhar. Ainda me permito sonhar ,mas como não poderia deixar de ser meu pensamento não vem manso como rio domado. Ele vem de enxurrada como rio represado que se solta e sai levando tudo, sem estribeiras, sem limites, corre descontrolado por margens e barrancos superando todos os obstáculos que possam surgir até se espalhar macio sobre amplos campos, entorpecido como sobre lençóis depois do amor.
Hoje estou enluarada! A lua toma conta da minha torre e faz com que minha prisão me pareça suave. Ela vem acompanhada de uma leve brisa que provoca danças de panos de cortinas.
E eu danço entre eles, altiva, linda, leve e feliz. A luz da lua é branca não, é azulada. Não sei como definir a cor da luz da lua. É cor de lua, é cor da minha alma.
Enquanto danço me entorpeço e me liberto. Encontro meu senhor, meu mestre, meu Rei, me liberto ainda sem saber o que fazer desta liberdade, preciso dele para me ensinar desde o dia do meu nascimento.
Contarei-te dos meus sonhos, do meu medo da liberdade que virá eu sei. Não sei se terei meu mestre comigo. Sinto a necessidade de ainda que livre me amarre a ele.
Nos meus sonhos ele me pega pelas mãos e me leva a lugares que só conheço das leituras insones. A última vez ele me fez deitar em verdes pastos. Eu fada entre brumas e ele me deu asas. Na verdade não caminhávamos, pairávamos sobre a relva orvalhada e a cor da lua dominava tudo, os cheiros que só as amadas sentem ele os deu pra mim. Bailamos inebriados sob o olhar de cervos, unicórnios, ninfas e amantes. Eu ingênua aprendiz nesse bailar, ele sussurrando aos meus ouvidos - 1,2, esquerda, 1, 2, direita - como quem diz palavras ousadas libertando meus instintos de mulher que deseja ser amada.
-Antes preciso te falar. Meu senhor é um Bruxo, me encontrou encastelada e não tendo como me libertar pelo forte feitiço em que me encontro, invade meus sonhos e me ensina a me libertar por meus próprios meios. Ele me quer livre da tristeza em que me encontro para que eu possa me entregar a ele por completo e sem medida alguma. Desprovida de pudor.-
Na dança giramos como num carrossel - a floresta em volta de nós - cores, luzes cheiros, sons, imagens- cada vez mais rápida, me embriagando até um quase torpor. Sinto-me carregada em seus braços. Meu Bruxo se transformara num Cavaleiro Negro. Cabeça em seu peito, seu cheiro de macho misturado a olores exóticos me fazem apertar seus braços fortemente, minhas unhas aguçadas prontas a cravarem marcas em seu corpo , músculos se contraindo e expandindo em ritmos cadenciados e fortes. Busco beber desse homem procurando sua boca. Sinto sua armadura me machucar de forma viril, sua espada me tocando. Quero morrer mil vezes ao corte dessa lâmina, e renascer a cada golpe do meu guerreiro. Ele toma conta do meu ser.
Levada a uma caverna onde uma cama forrada de peles macias se torna meu leito, Sinto frio ou estremeço de ansiedade? Ele se ajoelha ao meu lado, barba áspera a roçar meus seios sobre o fino tecido de que são feitas as vestes de fada. A esse toque quase desfaleço.
Deitada estou , olhos fechados sentindo suas mãos que me acariciam como a um alaúde me fazendo emitir sons de prazer. A cor da lua também está presente e percebo mesmo de olhos cerrados a sua intensa luminosidade. Lua cheia, lua mansa, lua da cor que eu imagino o amor.
Ele se levanta, abro os olhos e vejo o homem, meu cavaleiro negro e seu cetro ereto, eu ergo minhas mãos e o puxo para mim sentindo o calor macio e o peso do seu corpo. Eu agora o guio, até sentir a força da vida que me penetra.
Homem e Mulher, duas forças da natureza que se movem vigorosamente. Ouço meus gritos ressoando aos ventos, despertando as criaturas e os deuses, silenciando o tempo.
Acordo assustada.Olho para os lados como se não estivesse acreditando no meu destino. Lentamente,retorno à vida e à minha realidade. A cor da lua ainda domina a torre. Volto agora a dormir o sono dos satisfeitos, certa de que dia chegará, em que liberta, saberei encontrar o caminho que me levará ao meu cavaleiro negro.